Lançado em 1981, um ano após a morte de Paulo Sérgio, o álbum “Volume 14” trazia uma compilação de gravações inéditas, registradas durante a década de 70 e não aproveitadas em trabalhos anteriores. O cantor, que de forma recorrente fazia uso de temas tristes em suas canções, para as quais imprimia interpretações fortes e carregadas de emoção, despedia-se do público com um trabalho de conceito essencialmente melancólico (para ouvir este disco, Clique Aqui). Clima este realçado pela capa do álbum (em cuja fotografia o semblante de Paulo Sérgio transparecia amargura e indiferença) e pela reprodução (no encarte) da crônica “Procura-se Um Amigo”, supostamente redigida por este saudoso artista e encontrada dentre os seus guardados.

A divulgação pública do texto, ocorrida com o lançamento daquele álbum póstumo, causou grande comoção entre os fãs e admiradores de Paulo Sérgio. Nunca se poderá comprovar que a crônica em questão teria um caráter autobiográfico. Porém, é sabido que, a partir dos idos de 1978, abalado pela separação matrimonial (sua ex-esposa, Raquel Teles, até então lhe proporcionara um importante suporte pessoal e profissional), pelo descaso da mídia em reconhecê-lo como um artista autêntico e talentoso (passados dez anos, o cantor ainda sofria com a alcunha de “Imitador de Roberto Carlos” que invariavelmente lhe era atribuída) e pela ocorrência de problemas de saúde, Paulo Sérgio refugiara-se em sua chácara, localizada em Itapecerica da Serra-SP. Lá, afastado do cenário artístico e dedicando-se às atividades campesinas diárias, o cantor buscava motivação e inspiração para retomar sua carreira musical. Em 1980, com o lançamento do disco “Volume 13” e o sucesso radiofônico de “O Que Mais Você Quer De Mim”, Paulo Sérgio voltaria a ter participação cativa em programas de rádio e de televisão e a cumprir uma concorrida agenda de show’s. Infelizmente, um derrame cerebral, ocorrido na noite do dia 27 de julho daquele ano, quando o artista se apresentava no Circo Rosemyr (instalado no município de Itapecerica da Serra), viria abreviar uma das mais sólidas e coerentes trajetórias do cenário musical brasileiro.

A reprodução da crônica “Procura-se Um Amigo”, cuja autoria foi supostamente atribuída ao cantor Paulo Sérgio, encontra-se abaixo:


PROCURA-SE UM AMIGO


“Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaros, do sol, da lua, do canto dos ventos e das canções de briga. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois, todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.

Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova quando chamado de amigo, que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações da infância. Precisa-se de um amigo para não enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada; de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.

Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive."


O poema acima foi localizado dentre os guardados do cantor Paulo Sérgio. É possível que, em algum momento de sua vida, o seu conteúdo tenha tido algum significado.

 


OBS.: A crônica "Procura-se Um Amigo", que ilustrou o encarte do álbum póstumo "Volume 14", na verdade foi redigida pelo escritor e poeta francês Victor Hugo (1802 - 1885), autor, dentre outras obras, dos clássicos "O Corcunda de Notre-Dame" e "Os Miseráveis". Entretanto, sua autoria, supostamente atribuída a Paulo Sérgio, incorporou-se ao imaginário mítico deste saudoso cantor. Agradecemos ao fã pernambucano Hugo Gomes por esta oportuna informação.


OBS.: Agradecemos cordialmente ao comunicador Zezé Oliveira (Rádio Fênix FM - Mogi Guaçu/SP), amigo e colaborador regular do site, que gentilmente também nos cedeu a reprodução da crônica "Procura-se Um Amigo".